Bougainville - M�todo Montessori

Matéria: Questão de método

Kristhian Kaminski e Patrícia Gil

A precariedade da alfabetização no país é uma realidade demonstrada não só na falta de letrados como no excesso de números negativos. O Sistema de Avaliação do Ensino Básico (Saeb) mostra que o desempenho dos estudantes da rede pública, que já não era dos melhores, está piorando. Esses indicadores educacionais, nos próximos anos, vão engrossar as fileiras de trabalhadores sem qualificação, desempregados e sem perspectivas sociais. O fracasso das sucessivas tentativas do governo federal em superar essa deficiência é um desafio já resolvido em muitos países desenvolvidos. No Brasil, a polêmica pode estar apenas começando e - dentro das carências estruturais típicas de um cenário de subdesenvolvimento - parte da culpa pode estar no método de ensino e na sua falta de adequação à realidade socioeconômica do país.

Até então considerado o que havia de mais moderno e eficaz entre as teorias de ensino, o construtivismo passou a ser o alvo mais freqüente de ataques. Mesmo os seus mais fiéis adeptos reconhecem que seu emprego na educação básica brasileira vem sendo, no mínimo, distorcido. O conceito preconiza que é preciso levar em consideração a bagagem cultural adquirida pela criança antes de ingressar na escola. A técnica consiste em apresentar o mundo letrado ao aluno diretamente por meio do texto, mesmo antes que ele seja capaz de decodificar cada palavra. Pois é exatamente aí que se encontra a raiz do problema brasileiro: os que pregam a concepção construtivista muitas vezes ignoram que esses estudantes mirins trazem de casa uma bagagem bem mais vazia do que se esperava. Eles herdam dos pais uma história de defasagem educacional. "É a mesma coisa que pegar um texto em alemão, entregar a alguém que não conhece a língua e pedir para ler. Ou pegar uma partitura de Chopin e dar para um iniciante em música", comenta o professor Fernando Capovilla, coordenador do Laboratório de Neuropsicolingüística Cognitiva Experimental (Lance), do Instituto de Psicologia da USP.

Capovilla afirma que o construtivismo condena as crianças de classes menos favorecidas ao fracasso escolar. Além de questionar a validade da concepção usada no Brasil, ele é um dos mais ferrenhos defensores do emprego do método fônico. Taxado de antiquado por educadores ligados ao Ministério da Educação, o método prevê o básico: ensinar às crianças a correspondência entre sons (fonemas) e letras (grafemas).

A conclusão da pesquisa (leia quadro) foi de que as crianças alfabetizadas por meio de métodos fônicos desenvolvem melhor a compreensão e interpretação de textos, além de melhorar a expressão oral. "As descobertas mostraram que ensinar as crianças a manipular fonemas foi altamente efetivo sob uma variedade de condições de ensino e uma variedade de alfabetizandos de diferentes séries e idades", atesta o estudo. Os participantes do painel destacam que o treinamento em consciência fonética não constitui um programa completo de leitura. "No entanto, ele dá à criança conhecimento essencial sobre o sistema alfabético. É um componente necessário a um completo e integrado programa de leitura", afirma o relatório.

Outras entidades, como a International Reading Association (Associação Internacional de Leitura), dos Estados Unidos, também defendem a utilização do método fônico. Segundo dados da instituição, 98% das escolas norte-americanas utilizam o sistema em seus programas de alfabetização. "O ensino de fonética, que foca a relação entre sons e símbolos, é um importante aspecto no começo da alfabetização. Porém, uma instrução fônica efetiva deve estar encravada num contexto de leitura e linguagem", defende a associação. A Educational Resources Information Center (Centro de Informações em Recursos Educacionais) também prega que nenhuma técnica isolada tem bons resultados, mas considera o método fônico parte integrante de um bom sistema de alfabetização. O Ministério da Educação, a quem cabe elaborar as diretrizes do ensino no país, não admite a hipótese de que o baixo desempenho dos alunos do ensino fundamental e médio no Saeb possa estar associado ao modelo. Aliás, rejeita a redução do construtivismo a um método, no que está certo, mas não aceita a possibilidade de que o sistema talvez precise ser reavaliado.

O professor Capovilla discorda da posição do MEC. "O Brasil posa de moderno, mas diversos países desenvolvidos usam o método fônico com bons resultados. O Brasil continua na pré-história", acredita. Para ele, o construtivismo roubou do professor a função de ensinar, ao pregar que o texto seja introduzido desde o início da alfabetização. O método fônico, diz, não impede a introdução de textos no aprendizado, mas prevê que isso ocorra somente depois que o aluno tiver capacidade para decodificá-lo.

Como prova do fracasso do construtivismo entre alunos de classes mais baixas, ele cita uma escola pública de Marília (SP) que, após constatar que as crianças chegavam à 4.ª série do ensino fundamental sem saber ler e escrever, decidiu voltar a empregar o método fônico e conseguiu reverter a situação (leia na pág. 58).

De acordo com especialistas, existem alguns riscos de se introduzir um texto para uma criança que não sabe ler. Um deles é de que ela passe a adivinhar o significado das palavras em vez de compreendê-las e faça associações equivocadas. Um exemplo: se a criança conhece a palavra formiga, ela pode passar a confundir termos parecidos, como formigamento ou formigueiro. Dados do Lacen-USP indicam que o porcentual de crianças com dificuldades de leitura gira em torno de 4% no mundo. No Brasil, chega a 10%, fato atribuído por Capovilla ao sistema de ensino brasileiro.

Na avaliação de Magda, abandonar o construtivismo não é a solução, mas é preciso rever alguns pontos. "Em certos momentos, é preciso trabalhar com o método fônico, em outros, o método silábico é mais adequado. Há muito exagero dentro das correntes do construtivismo, como abrir mão do material didático, por exemplo."

Meio termo - A lingüista Idmea Smeghini-Siqueira, professora da Faculdade de Educação da USP, também defende um meio termo. Ao contrário do que se pensa, comenta, o professor continua sendo fundamental. Mas ele precisa conhecer o processo de aprendizagem e a real situação do aluno, que ainda não sabe ler. Para ela, o grande entrave ao processo está em mudar a cabeça de quem ensina. "Alguns entraram em contato com o construtivismo de forma muito superficial e não souberam aplicá-lo. Nesse caso, essa concepção acaba ficando como adorno porque não tem efeito."

O problema dos baixos níveis de aprendizagem toma contornos mais graves se levarmos em conta que, junto com a concepção construtivista, muitas escolas adotam processos de progressão continuada. Ou seja, o aluno passa a ser avaliado no fim de um período (geralmente ao fim da quarta e da oitava séries do ensino fundamental) e até chegar lá vai sendo aprovado mesmo que não tenha aprendido todos os conteúdos necessários.

As pesquisas do MEC, entre elas o Saeb, mostram que o aluno tem melhor desempenho quando está entre colegas da mesma idade. Um estudante da terceira série, por exemplo, tem mais chances de progredir se passar para a quarta série do que se repetir o ano. O sistema de ciclos, porém, acaba por mascarar um problema: a defasagem idade-série está sendo substituída pela defasagem de conhecimento. "O que não pode acontecer é o professor constatar que o aluno chegou à quinta série, por exemplo, sem saber ler, e querer insistir em ministrar o conteúdo previsto", avalia Ruben Klein, consultor da Fundação Cesgranrio.

Esse tipo de teimosia tem muito a ver com a história do construtivismo no Brasil. Não que a culpa seja toda do modelo. Mas pode estar na insistência cega em não rediscutir um sistema que ainda não demonstrou ser capaz de sozinho melhorar os indicadores de qualidade.

Colaborou: Silo Meireles


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